sexta-feira, 7 de junho de 2013

Métodos Quantitativos e Psicologia Ambiental: o exemplo do Saneamento

Para demonstrar a importância dos métodos quantitativos para a Psicologia, este trabalho apresenta o uso desta ferramenta no campo da Educação Ambiental e sua interdisciplinaridade com a Psicologia. Dessa forma, são apresentados dados coletados e consolidados anualmente desde 1995 através do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS, que resulta no Diagnóstico Anual sobre Águas e Esgotos no Brasil – uma publicação do Ministério das Cidades – Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental e do Atlas de Saneamento 2011, uma publicação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

SANEAMENTO NO BRASIL E PSICOLOGIA AMBIENTAL

Conforme o Atlas de Saneamento 2011 (MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO), o “saneamento ambiental abrange aspectos que vão além do saneamento básico, englobando o abastecimento de água potável, a coleta, o tratamento e a disposição final dos esgotos e dos resíduos sólidos e gasosos, os demais serviços de limpeza urbana, o controle ambiental de vetores e reservatórios de doenças, a disciplina da ocupação e de uso da terra e obras especializadas para proteção e melhoria das condições de vida” (ATLAS DE SANEAMENTO 2011, pg 45, MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO).
A falta ou a precariedade do saneamento, conforme apontado pelo Atlas de Saneamento 2011 (MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO), causa problemas ambientais como poluição ou contaminação na captação de água para o abastecimento humano, poluição de rios, lagos, lagoas, aqüíferos, doenças, erosão acelerada, assoreamento e inundações freqüentes.
A maioria dos municípios brasileiros dispõe de serviço de coleta de lixo, porém cerca de 50,8% é destinado para lixões a céu aberto. No ano de 2000, este percentual era 72,3%. A coleta seletiva, apontada como uma das soluções mais viáveis para reduzir o volume do lixo produzido, passou de 8,2% dos municípios em 2000, para 17, 9% em 2008. Dos que realizam a coleta, apenas 38 % abrange todo o município. Cerca de 42% dos municípios brasileiros não tratam de forma devida o lixo hospitalar. (Fonte: Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto 2010 – MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2010).
Em 2010, o Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2010) apurou informações sobre o esgotamento sanitário em 2.734 municípios. Estes números correspondem 85,3% da população urbana do país. As informações foram fornecidas pelos próprios prestadores dos serviços através de formulários eletrônicos. Foram elaborados dois tipos de formulários: simplificado e completo para que os prestadores pudessem responder.

Fonte: Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto 2010 – Ministério das Cidades

Observou-se que a quantidade de prestadores que responderam a um ou outro formulário compôs uma amostra significativa.
Fonte: Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto 2010 – Ministério das Cidades

O Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2010) aponta que houve um crescimento no sistema de esgotamento sanitário, em relação ao ano de 2009, de 2,4 milhões de ligações (11,8 %) e de 16,2 mil quilômetros de redes água (7,8 %). No que se refere a volume de esgoto coletado e tratado, o acréscimo foi de 432,7 milhões de metros cúbicos (10,2%) e 229,1 milhões (7,9%), respectivamente.
Fonte: Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto 2010 – Ministério das Cidades

O Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2010) chama atenção para o fato de que este acréscimo não representa incrementos de mesma proporção nos índices de atendimento. Supõe-se que as novas ligações, redes e volumes atendem ao crescimento vegetativo e a um contingente de usuários que mudou de domicílios.
Evidencia-se que há um crescimento populacional associado a um crescimento do consumo e suas necessidades, sem a contrapartida de aumento para os recursos naturais e de redução do tempo de degradação do lixo que o homem produz. A geração presente convive com o problema econômico clássico, acentuado pelo comportamento consumista e cada vez mais reforçado pelos padrões de consumo atuais: como alocar os recursos escassos para satisfazer as necessidades do homem ilimitadas.
 A Psicologia Ambiental, se munindo das ferramentas disponibilizadas pela Estatística, pode oferecer o caminho para o encontro do equilíbrio entre homem e ambiente. Tem como objeto de estudo o comportamento do homem em sua interrelação com o meio ambiente e atribui importância às suas percepções, atitudes e comportamento dentro de um contexto físico e social, entendendo que tanto o ser humano modifica o ambiente como o ambiente interfere no seu comportamento de maneira dinâmica.
Questões como o lixo e seu destino, o saneamento e sua abrangência e o tratamento adequado da água perpassam pelo comportamento consumista, antropocêntrico e descomprometido que o homem e as instituições adotam em relação ao ambiente.
Observa-se, diante do exposto, a aplicabilidade e relevância dos métodos quantitativos para a consolidação, sistematização e interpretação dos dados em Psicologia Ambiental. Os dados apresentados na área do Saneamento no Brasil chamam a atenção para a necessidade de se repensar as políticas públicas e a relação entre o homem e ambiente. Esta relação deve refletir o entendimento do homem sobre seu papel de preservação do ambiente que ele é parte.


REFERÊNCIAS:

MINISTÉRIO DAS CIDADES, Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental; Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento: Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos – 2010; Brasília, 2012

MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística;  Atlas de Saneamento 2011 – Rio de Janeiro, 2011

BASSO, Theda; AMARAL, Moacir. Triângulos: estruturas de compreensão do ser humano.  São Paulo: Ed. Do autor, 2007, 299 p.

Surgimento da Educação Ambiental e Saúde Mental



Ao falar sobre o surgimento da Educação Ambiental deve-se ressaltar que as questões ambientais, remetem ao surgimento do próprio homem, já que este sempre precisou se relacionar como o meio ambiente. Assim, o atual estado de devastação ambiental e o modo como o homem hoje se relaciona com o ambiente resultam de um processo histórico de produção da existência humana no qual o homem modifica aquilo que é fornecido pela natureza para seu próprio bem estar e satisfação.
O processo de globalização vai intensificar a problemática ambiental. Esta consiste no padrão insustentável adotado pela sociedade atual de produção e consumo, que pode ser identificado através do consumo exacerbado, da criação de desejos como necessidades e da ânsia dos produtores pelo aumento dos lucros e fortalecimento de mercados produtores e consumidores.
Alguns autores situam o surgimento das questões ambientais na década de 1970, juntamente com um conjunto de manifestações como a liberação feminina, movimentos “hippies” revoluções estudantis (especialmente maio 1968, na França), endurecimento de questões políticas na América Latina, a instituição de governos autoritários. Havia um fortalecimento dos modelos de desenvolvimento neoliberais, nos quais perseguia-se a qualquer custo o aumento dos lucros. O processo de industrialização acelerado como uma das bandeiras levantadas pelo Capitalismo apropriava-se tanto dos recursos humanos e quanto dos naturais.
Na Educação, percebia-se a crescente crítica aos modelos tradicionais de ensino, que objetivavam a formação de uma geração eficaz e eficiente para o mundo do trabalho. Surgiram, então, movimentos de renovação da Educação.
A publicação do livro "Primavera Silenciosa" (1962), da americana Raquel Carson, marca o início dos movimentos em defesa da Ecologia. Este livro abordava a perda de qualidade de vida devido ao uso de produtos químicos. Este livro repercutiu no mundo inteiro e as questões ambientais, passaram a fazer parte da pauta de reuniões de importantes organismos internacionais como a ONU.
A década de 70 experimentava uma crise ambiental, entretanto nas décadas de 50 e 60 alguns acidentes ambientais já anunciavam esta crise e receberam ampla divulgação na mídia:
a)     Contaminação do Ar em Londres e Nova York
b)     Intoxicação com Mercúrio e Niigata
c)     Diminuição da Vida Aquática em alguns dos Grandes Lagos norte-americanos
d)     Morte de aves devido aos efeitos secundários do DDT
e)     Contaminação do Mar devido ao naufrágio do Torrei Canyon, em 1966
Em 1972, a Conferência de Estocolmo coloca a Educação Ambiental como campo de Ação Pedagógica, adquirindo relevância internacional. Em 1974, foram reunidos os Princípios de Educação Ambiental no Seminário realizado em Tammi, que considerou que Educação Ambiental alcança objetivos de proteção ambiental e que se trata de uma educação integral e permanente.
O ponto culminante do Programa Internacional de Educação Ambiental foi a Conferência de Tbilisi (1976), nas qual foram definidas estratégias e objetivos pertinentes nacional e internacionalmente.
A década de 80 experimentou desastrosos acidentes ambientais como o de Chernobyl.
Em 1992 a Conferência das Nações Unidas para o Meio-Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro resultou em um dos mais importantes documentos para a Educação Ambiental que foi a Agenda 21 que reúne princípios norteadores até hoje.
Para o Ministério do Meio-Ambiente a Educação Ambiental é definida da seguinte forma:
“Educação ambiental é um processo permanente, no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, valores, habilidades, experiências e determinação que os tornam aptos a agir – individual e coletivamente – e resolver problemas ambientais presentes e futuros”.
Outra definição importante foi a elaborada pela Comissão Interministerial na preparação da  Conferência das Nações Unidas para o Meio-Ambiente e Desenvolvimento - ECO-92:
“A educação ambiental se caracteriza por incorporar as dimensões sócio-econômica, política, cultural e histórica, não podendo se basear em pautas rígidas e de aplicação universal, devendo considerar as condições e estágios de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva histórica. Assim sendo, a Educação Ambiental deve permitir a compreensão da natureza complexa do meio ambiente e interpretar a interdependência entre os diversos elementos que conformam o ambiente, com vistas a utilizar racionalmente os recursos do meio na satisfação material e espiritual da sociedade, no presente e no futuro." (ECO 92)
Por último, cita-se a definição da UNESCO:
“A educação ambiental é um processo permanente no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, habilidades, experiências, valores e a determinação que os tornam capazes de agir, individual ou coletivamente, na busca de soluções para os problemas ambientais, presentes e futuros (UNESCO, 1987)”.  
Diante do exposto percebe-se que Educação Ambiental envolve a importante questão de como o indivíduo se relaciona com o meio-ambiente. Sabe-se que, como dito anteriormente, o padrão de produção e consumo das sociedades atuais é insustentável e evidencia que, apesar de estudos, conferências, documentos, leis e outras ações que tem a questão ambiental como pauta, a problemática ambiental não diminui.
O homem continua se relacionando de maneira de maneira egoísta com o meio em que está inserido. Sua visão é antropocêntrica, pois o meio ambiente, em geral, é visto como mera fonte de satisfação de suas necessidades e desejos. O seu comportamento é infantilizado pois ele não entende que ele e Terra são constituídos da mesma matéria e são partes integrantes de uma totalidade. Se ele destrói o ambiente a sua volta, ele está destruindo a si mesmo enquanto ser.
O ser humano é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Experimenta a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como algo separado do resto, um tipo de ilusão da consciência. Essa ilusão restringe-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas a nós. Nosso trabalho deve ser libertar-nos dessa prisão, ampliando nosso círculo de compaixão para abarcar todas as criaturas vivas e a natureza inteira em sua beleza (EINSTEIN, 1916, apud THEDA BASSO e MOACIR AMARAL, 2007, p. 22).
A Psicologia Ambiental, como uma ferramenta multidisciplinar, tem o importante papel no sentido de refletir a relação e inter-relação entre o homem e meio-ambiente. Deve despertar o homem acerca de seu papel, suas responsabilidades, a as conseqüências do seu comportamento em relação ao ambiente.  É importante destacar que a relação homem X ambiente se reflete nos espaços social, cultural, religioso, familiar, educacional, profissional. E a Psicologia permeia todas estas áreas.
O homem, libertando-se do seu antropocentrismo, do egoísmo e dos comportamentos infantilizados será muito mais saudável mentalmente. A saúde mental pode ser entendida como um equilíbrio dinâmico que resulta da interação do indivíduo com seus vários ecossistemas. O seu meio externo e interno; as suas características orgânicas e os seus antecedentes pessoais e familiares.
Pensar em Educação Ambiental é pensar sobre a ideia de conscientizar o homem sobre sua condição e inter-relação com o meio ambiente. O homem e o ambiente fazem parte de uma mesma totalidade e esta percepção, que tem a Psicologia Ambiental como forte aliada no seu reforçamento, vai conferir saúde mental e física ao ser-humano.

REFERÊNCIAS

BASSO, Theda; AMARAL, Moacir. Triângulos: estruturas de compreensão do ser humano. São Paulo: Ed. Do autor, 2007, 299 p.

LIRA, Luiz. FERRAZ, Vânia. A Psicologia Ambiental: Uma relação de Equilíbrio entre o Homem e a Natureza. Disponível em: http://www.oceanario.org.br/index2.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=18&Itemid=91 Acesso: 10.05.2013

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Disponível em: http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/politica-de-educacao-ambiental - Acesso: 12.05.2013

PINHEIRO, J. Q & PINHEIRO, T. F. Cuidado ambiental: ponte entre Psicologia e Educação Ambiental? Revista Psico. 38 (1) 25-34


RIZZO, Juan Ferrari; Educação Ambiental ou Educação Ambiental. Disponível em: http://www3.mg.senac.br/NR/rdonlyres/em64m2qax63zz4iucexzi5yzftzwy246kglhddx43bugbobix6yvco5juojns6l6ltt7gk2meicnwl/ferrari.pdf - Acesso: 12.05.2013

sábado, 1 de junho de 2013

O blog foi criado no dia 13 de março de 2013 às 20:40 h pelos alunos do Curso de Psicologia Noturno, 1º Semestre, Daniela Isaac, Edelaide Brito, Juliano Lopes, Lana Cardoso, Mayana Andrade e Tainah Moraes.

Predominante com temas relacionados a Psicologia Ambiental e sua interdisciplinaridade, estes estudantes estarão publicando trabalhos que serão resultados de suas pesquisas, estudos e busca pelo conhecimento na área de Educação Ambiental.

O nome "Metamorfose Sustentável" surge do conceito e reflexão apreendidos pela equipe de que a SUSTENTABILIDADE relaciona-se com a constante e necessária MUDANÇA do indivíduo que vai se refletir em relacionamentos e comportamentos mais salutares com outros indivíduos e com o ambiente.




Resenha: “Memória para uso diário”



"Memória para uso diário" é um filme de Beth Formaggini (Brasil, 2007), que documenta a luta do  grupo "Tortura nunca mais" a partir de nomes comuns (Ivanilda, Romildo, Tania Roque, etc;)  que, apesar das memórias traumáticas fazem questão  que  suas  histórias e dos seus parentes desaparecidos , mais do que lembradas,  sejam  legitimadas. O filme foi contemplado por diversos prêmios no Brasil e no Exterior, tais como de Melhor Longa Documentário – Voto Popular (2007),
Ivanilda é o fio condutor do documentário. Militante do grupo "Tortura Nunca Mais", busca evidências que comprovem que seu marido Itair José Veloso, desaparecido desde 1975, foi preso pelo governo brasileiro. Esta percorre os arquivos da cidade do Rio de Janeiro para tentar encontrar algum indício da passagem de Sr Itair pelas prisões da Ditadura.  Cecília Coimbra e Flora discorrem sobre sua militância política, suas experiências na clandestinidade; sobre a prisão de Cecília e a fuga de Flora para o exílio; assim como, no filme há cenas encantadoras do leve manusear de velhos jornais pelas mãos das ex-militantes, Lola e Cléa, que trazem á tona recortes da história oficial em cima de uma memória política.  As falas se misturam às ações de militantes e parentes das vítimas da ditadura que reconstroem suas histórias pelas ruas e cemitérios clandestinos do Rio de Janeiro.
"Memória para uso diário" é um documentário sobre o reflexo da tortura dos anos da Ditadura Militar (1964/1985) que ainda hoje atinge o cotidiano das famílias que não tiveram a chance de enterrar seus parentes desaparecidos.  É também uma denúncia sobre as mães que choram pelos seus filhos, assassinados pela polícia nas favelas, pelas vítimas das chacinas que rotineiramente ocorrem nos  morros e nos bairros populares.
Diante da dor das famílias de vítimas das torturas expostas no documentário, e no lugar de estudantes do primeiro semestre de Psicologia esta resenha analisará o papel e o compromisso da Psicologia como ciência neste cenário e contexto histórico-social. É nítido que no período da ditadura havia uma tentativa por parte do Estado de anular a subjetividade psicológica do preso, considerado “terrorista”, através da tortura. Há uma relação, abordada no documentário, com a violação dos direitos humanos nas periferias do Brasil, nas quais jovens são mortos por serem confundidos com traficantes. Até mesmo se fossem traficantes deveriam ser julgados pela força da Lei e não serem “apagados” através de uma justiça paralela.
Na história da Psicologia no Brasil nos anos 60 e 70 depara-se com a existência de um movimento no sentido de oficializar a profissão do Psicólogo. Neste pretendia-se traçar os limites de atuação, definindo os espaços específicos da Psicologia. Esse movimento culminou na formalização da lei 4.119 que regulamentou a profissão no ano de 1962. Quando formalizada a profissão já existiam diversos psicólogos atuando em instituições, mas o trabalho em consultórios era restrito.  
 As conquistas da Psicologia viriam logo a serem significativamente retardadas com o Golpe Militar de 1964 e a instalação no país de um regime repressivo, exercendo grande controle sobre os movimentos organizados então existentes. A relação da Psicologia com a sociedade restringiu-se ao desenvolvimento de técnicas que possibilitassem a penetração em diversos grupos sociais, com o fim único de seduzí-los para a prática do Estado.
Na lei encontram-se aspectos de caráter normalizador sobre as funções privativas do psicólogo, como no artigo 13, no qual constam quatro itens: diagnóstico psicológico, orientação psicopedagógica, orientação e seleção profissional. Na alínea d: solucionar problemas de ajustamento. Assim, na Lei, está prevista a ação do Psicólogo enquanto normalizadora do comportamento. Ele deve solucionar os problemas de desvio e ajustar o sujeito, o grupo, a coletividade, num determinado padrão de uma suposta normalidade. Na lei fica explícito tal caráter normalizador da profissão do Psicólogo, que funciona como um mecanismo disciplinar e que produz um padrão de normalidade, ditado pelos padrões dos grupos sociais dominantes.
Diante do exposto, percebe-se que a Psicologia no Brasil, em sua gênese, esteve a serviço do Estado como um instrumento de manipulação de massas e com uma prática perpetuadora das relações de poder instituídas no país. 
Qual o tributo atribuído à psicologia diante das torturas na Ditadura Militar?
Considera-se que realizar um histórico das práticas políticas exercidas no país durante o Regime Militar aliadas ao papel da Psicologia neste contexto é poder desvelar o que está encoberto sob o discurso oficial e instituído.  A história mostra que a Psicologia foi neste momento utilizada com o fim de dominação-doutrinação, onde os saberes psicológicos estavam em conformidade com os interesses do Estado, e atestavam que o movimento dos militantes políticos derivava-se de uma patologia psíquica para assim deslegitimar o movimento popular. A Psicologia prossegue como sendo um instrumento de normalização social, que junto com o Estado instituiu o terror e conseqüentemente a dor de que fala o documentário em questão.
Resta a reflexão sobre o sentido dos saberes e práticas psicológicas nos atuais dias. A circulação das ideias na forma de uma reflexão mais fecunda sobre a prática da Psicologia sofria sérias restrições e retaliações. Isso explica, mas não justifica a posição dos psicólogos no regime da Ditadura militar, que emitiam laudos atestando que os militantes dos movimentos contra o Governo representavam uma “ameaça à ordem” e “eram inimigos da Pátria”.
Uma discussão proveitosa se dá no sentido de repensar os fundamentos ideológicos e sócio-políticos de rever a atuação da Psicologia e da produção de um saber relevante onde se privilegie minorar o sofrimento psíquico e criar condições para o desenvolvimento de um sujeito social consciente, autônomo e crítico.  A Psicologia deve ter um caráter tão somente emancipador e contributivo para o progresso da sociedade, dos sujeitos e da coletividade.

REFERÊNCIAS
Ventura, Zuenir. 1968: O ano que não terminou - Rio de Janeiro. Nova Fronteira,1988.
Vozes. Editora Vozes Ltda. Brasil nunca mais. Petrópolis-RJ 1985.
Foucault, M. (1984). Vigiar e punir. Petrópolis, RJ: Vozes.
Macedo, J. R., & Maestri, M. (2004). Belo Monte: uma história da guerra de canudos. São Paulo: Expressão Popular. PSICOLOGIA USP, São Paulo, 2012, 23(1),
Hur, D. U. (2005). Políticas da Psicologia de São Paulo: as entidades de classe durante o período do regime militar à redemocratização do país. Dissertação de Mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Psicologia Ambiental e Crescimento Pessoal e Grupal

Como  a psicologia ambiental pode contribuir no processo de crescimento pessoal e grupal do indivíduo?

Um dos expoentes na história do desenvolvimento da Psicologia Ambiental foi o psicólogo alemão Kurt Lewin que considerava a importância da dimensão ambiental na Psicologia. O principal conceito de Lewin é o de Espaço Vital, que ele define como sendo a totalidade dos fatos que determina o comportamento do indivíduo num certo momento. As maiores influências de Lewin na Psicologia Ambiental foram a Teoria de Campo e a Pesquisa-Ação, sendo que a primeira levou à consideração mais cautelosa do ambiente físico nas pesquisas e a segunda assinalou a importância da pesquisa científica estar vinculada a mudanças sociais concretas.
Por ter um caráter interdisciplinar, a Psicologia Ambiental mantém interface com áreas de estudo tais como a Sociologia e Antropologia Urbana, Arquitetura, Paisagismo, Biologia, Zoologia, Urbanismo e Geografia, Ergonomia, Desenho Industrial entre outros. Esta interdisciplinaridade se iniciou no Pós Guerra, sobretudo na II Guerra Mundial, quando houve o esforço dos países para reconstrução da habitação e convivência social.
A Psicologia ambiental é uma subárea da Psicologia que tem como objeto de estudo o comportamento do homem em sua interrelação com o meio ambiente (natural ou construído), atribuindo importância às suas percepções, atitudes e comportamento dentro de um contexto físico e social. Consideram-se as dimensões sociais e culturais como elementos que influenciam a definição do ambiente, bem como a avaliação que o indivíduo faz sobre este ambiente. Entende-se que tanto o ser humano modifica o ambiente como o ambiente interfere no seu comportamento. Sendo a interação entre o ambiente e o indivíduo dinâmica, ao longo do tempo ela interfere e modifica tanto as condutas humanas quanto o meio-ambiente.

Não tem sentido falar, por exemplo, de um animal que respira sem considerar o ar e o oxigênio como parte da definição deste, ou falar de comer sem mencionar a comida, ou de enxergar sem luz, ou de locomoção sem gravidade e um chão para apoio, ou da fala sem comunicadores. Não há uma única função de animal algum, que se complete sem objetos de ambiente, quer se pense funções vegetativas como alimentação e sexualidade quer em funções perceptivas, motoras, sentimentos ou raciocínio (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1997, p. 42).



A Psicologia Ambiental encontra resistência na visão antropocêntrica, que coloca o homem como centro de análise sem dar a devida importância à relação deste com o ambiente. O meio ambiente é visto como mera fonte de usos e recursos para que as necessidades humanas sejam atendidas de forma indiscriminada. O homem aqui é visto como um centro separado do ambiente ecológico, fora ou acima dele, e a sua subjetividade é “mal-interpretada”. Impera o narcisismo exacerbado e um consumo meramente emocional. O próprio sistema de hábitos, costumes, tradições e valores reafirmam o modelo de desenvolvimento insustentável tanto sob a ótica da produção quanto do consumo. O antropocentrismo contribui para adoção de comportamentos infantilizados em relação ao Planeta, bem como para o seu desequilíbrio e do próprio homem.
A Psicologia Ambiental percebe o homem e o ambiente como um organismo. O indivíduo não pode existir sem o ambiente e deve desenvolver com este uma relação de sustentabilidade percebendo o ambiente como extensão dele próprio, pois em todo o tempo a interrelação se faz presente não apenas no físico, mas no social e cultural.  A Terra não pode ser vista como o meio-ambiente da vida, mas sim como parte da vida.
O ser humano é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Experimentar a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como algo separado do resto, é um tipo de ilusão da consciência. Essa ilusão restringe-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas a nós. Nosso trabalho deve ser libertar-nos dessa prisão, ampliando nosso círculo de compaixão para abarcar todas as criaturas vivas e a natureza inteira em sua beleza (EINSTEIN, 1916, apud THEDA BASSO e MOACIR AMARAL, 2007, p. 22).

O grande desafio da Psicologia Ambiental é contribuir para que o homem apreenda que é parte do ambiente, que depende deste ambiente e deve desenvolver com este uma relação de sustentabilidade. Esta apreensão deve ser refletida no comportamento do homem que faz da sua relação com o seu entorno algo salutar tanto nos aspectos socioculturais quanto ecológicos. Como uma área multidisciplinar, ela deve consolidar um novo padrão de pensamento instituindo o homem e a Terra como uma totalidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. Tradução Fernando
Rosa Ribeiro. São Paulo: Summus, 1997, 266 p.
BASSO, Theda; AMARAL, Moacir. Triângulos: estruturas de compreensão do ser humano.

São Paulo: Ed. Do autor, 2007, 299 p.

Educação Ambiental X Consumo

Falar em Educação Ambiental é falar sobre a reconstrução do nosso sistema de hábitos, costumes, valores e tradições. Conforme Guun (1996), o atual sistema de valores da nossa civilização propicia modelos de desenvolvimento que são insustentáveis. Pensar em Educação Ambiental como forma de estabelecer na sociedade uma consciência verde e hábitos de reciclagem é uma forma muito simplista e reducionista de tratar a questão.

A grande problemática ambiental consiste no nosso atual modelo insustentável de produção e consumo. De um lado, encontram-se os grandes oligopólios que, querendo aumentar seus lucros, trabalham pelo aumento da produção que carece e precisa de uma demanda sempre crescente para ser efetivamente absorvida. Estes conglomerados investem no marketing, tendo como aliado a mídia sedutora e agressiva, para criar desejos que se confundem com necessidades. Uma necessidade, de forma simplificada, pode ser entendida como aquilo que é essencial, aquilo que seja imprescindível. Comer, vestir, se deslocar por exemplo.

Um desejo, dentro dos nossos padrões de consumo, é a vontade de comer aquela comida, vestir aquela grife e se deslocar com aquele carro do ano. Desejo é a vontade de possuir algo, a cobiça, o anseio ou aspiração. Desejo não é necessidade, entretanto, a sociedade do consumo não discerne a diferença, já que a linha que os separa se torna tênue quando o desejo é assimilado pelo o indivíduo como uma necessidade. O avanço tecnológico vem corroborar estes padrões fazendo com que o consumo pela tecnologia de última geração seja cada vez mais exacerbado e impensado, pois a tecnologia anterior continua a cumprir o seu papel, mas já há uma imposição para ser substituída. Este fenômeno é facilmente observado nos mercados de celulares, computadores, tablets e televisores por exemplo.



Do outro lado está o consumidor, inserido na Era do Consumo, que não pode ser visto apenas como vítima do capitalismo, mas sim como assujeitado ao sistema, pois ávido pelo consumo, ele retroalimenta este sistema e sustenta a posição dominante dos oligopólios. O consumidor busca maximizar seu bem estar, que na economia tradicional é visto pela sua capacidade de gastar e consumir.

Nesta economia, quanto mais o indivíduo consome, maior é seu bem-estar e maior a sua afirmação social, pois o consumo também lhe dá prestígio, status social e prazer. Não apenas a satisfação é importante, mas a satisfação imediata.

De que forma esta dicotomia entre os modelos do consumo e de produção se reflete na Educação Ambiental? O consumidor não reflete sobre o que precisa, sobre o que compra e sobre como vai descartar ou reutilizar o que consumiu. Ele não reflete sobre seu papel numa sociedade que se afirma na posse e exploração de recursos, pois seu ritmo de consumo é tão frenético e imediato que não lhe permite ao menos pensar no futuro. As grandes empresas não se preocupam com o lixo que produzem e com o impacto ambiental gerado por esta produção, pois seu objetivo é o lucro, é a produção de bens e necessidades. Fazer o homem entender que a natureza não está para lhe servir é o primeiro passo para se pensar efetivamente sobre a Educação Ambiental.

A sociedade precisa efetivamente conhecer o problema econômico: como alocar os recursos que são ESCASSOS para atender os desejos do homem que são ILIMITADOS. Com o passar do tempo o planeta sofre as conseqüências: os recursos estão cada vez mais escassos e os desejos cada vez mais aguçados e ilimitados. A poluição, o aquecimento global, a extinção de animais, a falta de alimentos e outros fenômenos alertam para um colapso ambiental. É preciso romper com o antropocentrismo que se reflete na atual organização social e produtiva “pensando globalmente e agindo localmente”.

A Educação Ambiental é a solução mais efetiva e funcional para as questões da inter-relação entre o homem e o meio ambiente no tocante a informação e conscientização. A sociedade, entenda-se empresa, consumidor e poder público, precisa se engajar e participar ativamente das mudanças sociais assimilando as condutas pró-ambientais, novos hábitos e reformulando políticas públicas que resultem no desenvolvimento sustentável.

Naturalmente, é preciso e fundamental reciclar o lixo. Entretanto muito mais importante talvez seja repensar e reformular o atual sistema de hábitos, costumes, valores e tradições para entender que todos os recursos disponíveis são escassos e finitos.